
A quarentena de muitas mães profissionais de Enfermagem é diferente. Elas também se isolam, porém muitas delas não podem ficar em casa o tempo todo. Neste momento da pandemia da Covid-19, enfermeiras, técnicas e auxiliares de enfermagem estão passando mais tempo dentro dos hospitais do que com seus filhos.
Elas mudaram suas rotinas para enfrentar uma doença que tem matado milhares de pessoas pelo mundo. As atividades em família passaram a ser um plano futuro, já que os cuidados foram reforçados para não se contaminar ou virar uma agente de transmissão para os que estão dentro de suas casas.
Saynara França, que é técnica de enfermagem e está na linha de frente da Covid-19, contou para o Conselho Regional de Enfermagem de Alagoas (Coren-AL) que o maior desafio é voltar para casa e não está com os filhos.
“Meus filhos choram para vir para casa, as lágrimas rolam nas chamadas de vídeos. Há pouco dias tive alguns sintomas e precisei me afastar das atividades profissionais, mas voltarei para linha de frente, para o trabalho. Meu chamado é minha profissão, não posso recuar. O medo? Ele vem, mas lembro do juramento que fiz“, destaca Saynara.
De acordo com a técnica de enfermagem, a expectativa da família é que outras pessoas entendam a necessidade de respeitar o isolamento social para não colocar em risco a vida dos profissionais de saúde.

Já para a enfermeira Eduarda Lays Alves, o Dia das Mães deste ano não será o mesmo, pois ela estará dando plantão. Eduarda buscar forças na relação virtual com o filho de 17 anos, que é do grupo de risco e já está há um tempo sem poder abraçá-la.
“Vou exclusivamente da casa para o trabalho e do trabalho para casa, sem contato nenhum com minha família. Procuramos nos falar através das redes sociais, mas como somos muito afetivos e adoramos abraçar, está sendo uma fase muito difícil” conta ela.
A mãe da Júlia Letícia, de 10 anos, a enfermeira Jullianna Meirelles do Nascimento disse que tem se apegado a fé em Deus para acreditar que isso tudo vai passar. Além de se afastar da Júlia, que está diabética, também se afastou da mãe que é idosa e hipertensa.
A comunicação entre elas tem sido diariamente por vídeo-chamadas de telefone e uma ou duas vezes por semana, Julianna passa na porta do prédio de minha mãe para vê-las da varanda.

“Então tento dar o meu melhor à distância, como mãe e filha, orientando. E nas horas vagas ainda sou professora on-line, ajudando-a nas tarefas da escola, através de vídeo-chamadas. Quando estamos distantes, percebemos que como faz falta os abraços, as risadas, a bagunça na casa, o barulho, os abusos. Como é difícil ficar longe. Saudade dói, machuca. Muito triste, sentimento de vazio, mas sabendo que é para um bem maior, para protegê-las.”, afirmou.
O presidente do Conselho Regional de Enfermagem de Alagoas, Renné Costa, destaca a força e dedicação dessas mulheres que, além de profissionais de enfermagem, são mães. “A enfermagem representa 70% da força de trabalho da saúde brasileira, e é formada por 85% de mulheres. Não podemos negar que as mulheres são a maior força da enfermagem. Quero parabenizar e agradecer a cada uma dessas mulheres”, afirmou o Renné.
Nem anjos, nem heroínas
O Coren-AL lançou neste mês, que também é comemorado o dia do enfermeiro e do técnico, a campanha: “Nem anjos, nem heróis. Somos profissionais, somos enfermagem”, que pretende mostrar a força da profissão e comprometimento desses profissionais com a saúde brasileira.
“Diante de todas essas situações, muitas vezes os profissionais de enfermagem são vistos como anjos e heróis, mas não são assim que elas se sentem quando não podem ficar com seus filhos nos Dia das Mães. Precisamos de Equipamentos de Proteção Individual, temos medos, somos humanos. A diferença é que na nossa formatura nós juramos que iríamos proteger vidas, e não vamos abandoná-las em um momento como este”, explicou o presidente do Conselho, Renné Costa.
